Como os livros queimam é o artigo do conselheiro Valdecir Pascoal (TCE-PE) publicado no Estadão

Como os livros queimam

Oh! Bendito o que semeia

 

Livros… livros à mão cheia…

 

E manda o povo pensar!

 

O livro, caindo n’alma

 

É germe – que faz a palma,

 

É chuva – que faz o mar.

 

(Castro Alves)

Aconteceu na antiguidade, quando puseram fogo na Biblioteca de Alexandria, seu verdadeiro farol. Aconteceu em muitos momentos da história, em nome de ideologias, religiões e totalitarismos. Em Berlim, no chão da Bebelplatz, uma lousa de vidro sobre uma estante vazia é monumento em memória à queima de livros, pelos nazistas, na fatídica noite de 10 de maio de 1933. Uma placa de ferro, ao lado, reproduz o amargo testemunho do poeta alemão Heinrich Heine: “Isso foi apenas um prelúdio: ali, onde se queimavam livros, ao final queimavam-se também pessoas”. Memórias reavivadas, segue o tempo.

Hoje, os livros não são queimados em fogueiras. Queimam-se livros quando não se tem uma efetiva coordenação na política nacional de educação. Queimam-se livros quando a ortodoxia fiscal transforma-se em tétano que constrange, porque constringe investimentos necessários na educação. Queimam-se livros quando os professores não têm um salário digno, quando tentam cercear-lhes a liberdade de cátedra e quando se afronta a autonomia universitária. Queimam-se livros quando se pretende desvincular os gastos da educação das receitas de impostos. Queimam-se livros quando os controles e a gestão focam apenas o aspecto financeiro das despesas e deixam de avaliar os indicadores de qualidade da educação. Queimam-se livros quando não se decide sobre o novo Fundeb. Queimam-se livros quando não se procura reduzir as desigualdades no acesso de alunos e de professores a novas plataformas tecnológicas de ensino. A pandemia escancarou o problema e as notícias de professoras públicas se desdobrando para entregar as atividades escolares na casa dos alunos, ao tempo em que revelam o tamanho do desafio, emocionam, pela nobreza do gesto.

Queimam-se livros quando governantes desviam recursos da educação. É impactante, pelo simbolismo, a cena do filme Bacurau em que um caminhão de lixo despeja livros (mal cuidados) no meio da rua do lugarejo. Queimam-se livros quando, em pleno Século 21, escritores brasileiros consagrados, como Machado de Assis, Rubem Fonseca, Ferreira Gullar, Carlos Heitor Cony, Euclides da Cunha, Mário de Andrade, Nelson Rodrigues e José de Alencar, engrossam uma nefasta lista de obras censuradas por uma secretaria de (des)educação de um Estado. Queimam-se livros quando se pretende negar a história do país, qual se fazia nos labirintos do “Buraco da Memória”, no distópico “1984”, de George Orwell. Queimam-se livros quando se despreza a arte, a cultura e a ciência.

E porque se queimam livros, florestas são dizimadas (livro vem de liber: membrana que existe debaixo da casca das árvores, espécie de papel primitivo). Porque se queimam livros, a democracia e a liberdade são postas em xeque. Porque se queimam livros, houve “paraisópolis” e mataram George Floyd e tantos Joãos, Pedros e Ágathas. Porque se queimam livros, muitas mortes decorrentes da Covid-19 não puderam ser evitadas. Porque se queimam livros, o futuro permanece sem… futuro. Urge revisitar o poeta Heinrich Heine e também refletir sobre o que narrou a própria Morte na última linha da obra “A menina que roubava livros”: “Os seres humanos me assombram”. Livro é vida e a história da menina Liesel é uma prova.

Habeas Liber!

P.S.: Dedico esse artigo à professora Cidinha, minha saudosa mãe.

*Valdecir Pascoal, conselheiro e diretor da Escola do TCE-PE

Publicado no Jornal Estadão